13.4.05


"O comboio aparece ao longe encabeçado pela luz que ilumina os trilhos bem por cima da cabeça do maquinista. Já é quase noite e o frio aperta enquanto caso os últimos botões do casaco. Ao mesmo tempo chega perto de mim o botão de abrir as portas. Pressionado tantas outras vezes apresenta um desgaste evidente mas sempre fiel na sua função de recolher aqueles que confiam o seu regresso a casa a este monstro de metal. Muitas são as caras que me rodeiam, com olhares perdidos, mentes viajantes, dormitam ao sabor dos balanços tentando amenizar o cansaço. Deixo-me mergulhar nas páginas de um livro que consumo ao sabor do balanço, levanto os olhos de tempos a tempos para verificar o meu lugar no mundo e quem me rodeia, a cada página lida, a cada estação que pára, o cenário que me rodeia altera-se, as caras mudam, mas o ambiente é o mesmo, cada um viajando em si mesmo. Á medida que as estações vão ficando para trás a carruagem vai ficando vazia os que ficam há muito que se deixaram adormecer. Entre a passagem de um capítulo olho pela janela, vêem-se rastos de luz que lembram um filme que o projeccionista deixou queimar, pessoas que se espreguiçam dentro dos carros perfilados na estrada contígua aos carris, namorados que de mãos dadas passeiam pelos parques ao por do sol e amantes do desporto que aproveitam os últimos raios de sol para fazer a sua corrida á beira mar. A minha estação está próxima, marco a página onde tive que parar, mais uma vez vejo os rostos que me rodeiam e identifico alguns, são companheiros do mesmo horário, da mesma estação. À chegada resta esperar que as portas se abram e dizer:
- Até amanhã…."